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Jul. 6th, 2014

O grito da torcida ainda ecoava no estádio enquanto o barulho dos jogadores enchia o túnel de acesso ao vestiário. Júlio César estava sendo entrevistado e David Luiz o olhou pelo canto dos olhos antes de acenar uma última vez para as arquibancadas e ser finalmente cercado pela parte interna do estádio.

Marcelo puxou uma música e de repente era como se a vida fosse definida apenas naquilo: o resultado de um jogo de futebol. Alguém passou correndo pelo seu lado e bateu em sua bunda, fazendo David Luiz soltar um grito que logo foi camuflado pela festa dos outros jogadores brasileiros.

Alguns deles começaram a brincar com Felipão e o técnico deu um meio-sorriso, logo rebatendo para que eles o deixassem em paz, mas eles eram insistentes. Felipão acabou sendo levantado e carregado até o vestiário, David sendo um deles.

Assim que o colocaram no chão, o loiro de cabelos enrolados (e bem bagunçados, diga-se de passagem) sentiu alguém puxar seu pulso de leve – O capitão. David desvencilhou –se da bagunça de corpos suados e barulhentos ao seu redor e seguiu Thiago Silva para fora do vestiário após vê-lo dizendo algo como “posso falar com você?”.

“Vou ganhar comissão pelo gol? Um carro? Uma casa? Cara, sério, uma casa seria bem legal-“

“Cala a boca.” Thiago Silva o cortou, e o sorriso nos lábios de David sumiu imediatamente. O capitão nunca falava assim com seus jogadores.

“Que isso, cara?” David soltou uma risada sem graça, dando um tapinha no ombro do outro.

“Só... fica quieto. Sério.” Pediu, exasperado. David obedeceu por falta de opção melhor. “O que foi aquilo? No final do jogo?”

“Hm... Uma... comemoração...?” Respondeu, incerto, mas a forma que Thiago o olhava mostrava que algo estava errado, mesmo que o loiro não conseguisse imaginar o que era. “Que foi, Thiago? Tava tudo bem e agora você tá agindo desse jeito.”

Thiago Silva suspirou e tomou seu tempo tirando a braçadeira de capitão antes de prosseguir. “O que foi aquilo com James Rodriguez?” seus olhos encontraram os de David. “Virou babá?”
David revirou os olhos. “Tá brincando, né? Você tá puto por causa disso?”

“Sim, David, eu tô!” Ele jogou a braçadeira no peito do loiro, que pegou o pedaço de pano sem desviar os olhos do outro, que estava alterado, a voz ficando cada vez mais elevada. “Eu tô porque você foi consolar um cara que era nosso adversário!"

“E qual é o problema nisso?!” Respondeu, indignado. Esperava qualquer coisa, qualquer acusação, mas não aquela. “O garoto tava chorando, Thiago, ele é esforçado e você sabe bem disso! Poderíamos ter sido nós no lugar deles!”

“Eu não ligo, David! Eu não vou estar aqui no próximo jogo, merda! É difícil pra mim também, mas em momento algum você pensou em me abraçar ou me consolar!”

O barulho crescente no corredor anunciou a vinda dos jogadores colombianos, e Thiago parou de falar por alguns segundos, seus olhos nunca deixando de fitar o chão. David Luiz acenou com a cabeça para os colombianos, que retornavam com um sorriso pequeno.

Os olhos de James Rodriguez demoraram alguns segundos no loiro, e o colombiano sorriu. David retribuiu, segurando a tarja de capitão de Thiago com força entre os dedos. Então o mais novo fitou o capitão da seleção brasileira, e ele percebeu que havia alguma coisa com ele. Suas sobrancelhas franziram. David apenas deu de ombros, mas o sorriso que deu a James era triste.

O colombiano apenas assentiu, olhando uma última vez para Thiago, que não ousava tirar os olhos do chão, e seguiu seu caminho com os outros jogadores, arriscando um último olhar para David quando já estava longe.

“Você...” Thiago soltou uma risada sem qualquer traço de humor. “Você é nojento.” David sentiu como se tivesse levado um tapa na cara. “Ele tem vinte e dois anos. Nojento.” Balançou a cabeça.

“Engraçado. A minha idade não atrapalhou na primeira vez-“ David cortou suas palavras quando um staff passou por eles. “Quer saber? Deixa pra lá. Mas eu esperava mais de você. Esperava mais do nosso capitão.” David levantou a mão que segurava a braçadeira de Thiago, levando-a contra o peito do mesmo, com força. “E pega isso. Não quero nada que seja seu. Não enquanto você tiver esse ciúmes ridículo tirando seu foco.”

Antes que Thiago pudesse dizer qualquer coisa, David saiu andando pelos corredores, procurando uma área onde pudesse ficar um tempo sozinho e acalmar seus pensamentos. Não acreditava que Thiago pudesse ter aquele tipo de reação em um dia como aquele, após uma vitória daquelas, onde eles dois tinham sido os maiores responsáveis, inclusive. Thiago nunca havia agido daquela forma, não por ciúmes. Mas principalmente como capitão.

David conhecia Thiago por dentro e por fora, nos bons e maus momentos, na vida pessoal e na profissional. Ele sabia que a determinação e a liderança de Thiago eram indestrutíveis e inabaláveis, e isso o deixava ainda mais confuso. Thiago era sempre calmo e controlado, porque sempre dava o exemplo. Mas agora David tinha acabado de conhecer outro lado dele, e isso não significava que ele tinha gostado do que vira.

Quando já estava afastado o suficiente da bagunça, David entrou na primeira porta que viu, não se preocupando em fechá-la. Sentou-se no chão, por falta de opção melhor, e fechou os olhos, apoiando a cabeça na parede. A euforia estava finalmente saindo de seu sistema e o cansaço finalmente tomou conta.
Pensando na noite como um todo, David não podia se sentir mais aliviado: tinha feito o seu papel.

Ou não, pensou, rindo baixinho, afinal, era zagueiro. Fazer um gol não era exatamente seu papel.

Detalhes.

Ouviu dois toques e abriu os olhos, encontrando James parado à porta, a camisa de David no torso. Ele não sorria, mas David o fez ao vê-lo “Ei... Gostou tanto do meu suor assim pra ficar com essa camisa até agora?” Ele riu, falando um tanto quanto devagar para que James pudesse entende-lo da melhor forma.
O garoto pareceu um tanto quanto encabulado pela pergunta, trocando o peso do corpo de uma perna para a outra, sem entrar na sala. “Eu não mordo, apesar da cara feia e do cabelo de louco. Pode entrar se quiser”.

James soltou um longo suspiro antes de obedecer, os olhos baixos. “Eu... Só queria agradecer. Desculpa se atrapalhei, mas... Eu vi você entrando aqui e...” Ele escorregou pela parede de forma quase infantil, e David queria rir porque de repente James era um adolescente, e não um jogador que carregava uma nação inteira nas costas. A feição determinada e séria de mais cedo agora era quase serena, cansada. “E eu vi você e Thiago aquela hora. Eu estava ali fazia um tempo, na verdade... Não entendi muito bem o que vocês diziam porque estavam falando muito rápido, mas ele parecia bravo”.

David esticou as pernas de forma preguiçosa, deixando-as levemente entreabertas. “É besteira, não precisa se preocupar. Ele só estava mal porque não vai participar do próximo jogo”.

“Oh, sim. Sinto muito.” James respondeu baixinho, fitando suas mãos sobre seu colo. “Eu ouvi meu nome”.

“Hm? Como assim?” David perguntou, a sobrancelha arqueada.

“Eu ouvi Thiago dizendo meu nome, eu... Achei que tinha feito alguma coisa.” Coçou a nuca.
O loiro balançou a cabeça, fazendo os cachinhos loiros moverem-se de forma quase cômica. “Você não fez nada”. Garantiu, e James finalmente o olhou, sorrindo um pouco. Mas já era alguma coisa, David pensava. “Mas como você está? Mais calmo?”

“Oh, sim. Estou, obrigado.” O silencio caiu sobre os dois, mas David gostava. Às vezes era um pouco difícil entender o que James falava, e ele acreditava que o garoto também tinha dificuldades. O silêncio era confortável, e foi quando David encontrou os olhos de James com os seus que ele decidiu que sim, o silêncio era melhor. E ele falava muito mais alto do que qualquer palavra em português ou em espanhol.

Nojento.

A voz de Thiago, reprovadora, ecoou em sua cabeça, mas David fechou os olhos e fez com que ela fosse embora. Não precisava disso agora, não com James ao seu lado, feição inocente e quase curiosa ao examinar o jogador brasileiro.

“Quer saber, James?” Ele começou, sua mão direita batendo algumas vezes na coxa do mais novo, e ele soltou uma risada baixa. “Você fez uma coisa para o Thiago sim.” Assentiu com a cabeça, como se tivesse chegado a uma conclusão. Vendo James morder o lábio, pronto para perguntar o que, David apertou sua perna de leve. “Você roubou o coração do cara maaais legaaal dessa copa.” Falou, divertido, e seu sorriso foi espelhado no rosto do colombiano.

“Do Neymar?” O garoto perguntou, de forma desafiadora, soltando uma risada quase infantil quando David revirou os olhos. “...Messi?” Tentou novamente, levantando-se devagar e ficando de joelhos quando viu o loiro estreitar os olhos em sua direção.

“O Neymar eu até aceito... Mas o Messi já é passar dos limites.” Ele puxou James pelo pulso fazendo o garoto cair em seu colo enquanto suas mãos faziam cócegas por todo o corpo do moreno, que agora gargalhava abertamente e David precisou parar um pouco, pedindo que James abaixasse o volume para que eles não chamassem atenção de ninguém – a porta continuava aberta. O brasileiro também estava rindo quando James se apoiou completamente contra seu peito, o corpo cansado e dolorido incapaz de fazer muito esforço.

O colombiano soltou um suspiro contra o pescoço de David, fazendo o brasileiro fechar os olhos. Seus braços contornaram o corpo do mais baixo inconscientemente. “David...” ele chamou, baixinho, recebendo um aperto na cintura como sinal de que estava recebendo atenção. E honestamente, David achava que seu nome, sussurrado daquela forma, com aquele sotaque, era a melhor coisa que ele poderia pedir. “O cara mais legal da copa também roubou meu coração”. Ele murmurou, beijando de leve o pescoço do loiro.

David sorriu. “O Neymar ou o Messi?” perguntou, e recebeu um tapa no ombro como resposta.

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